O nome já explica a origem geográfica. Alentejo significa “além do rio Tejo”, para quem parte de Lisboa. Fica no sudeste de Portugal e ocupa um terço do território lusitano com 500 mil habitantes, que representam apenas 5% da população do país. A região dispõe de mais de 40 tipos de uvas.
De lá saem vinhos tintos concentrados, extraídos de taninos macios, muito corpo e alto teor alcoólico. São muito apreciados pelos brasileiros, daí ser o Brasil o principal mercado para os vinhos alentejanos. Antão Vaz é a uva branca mais afamada, junto com Arinto, Fernão Pires e Roupeiro. Já a tinta é baseada na Tinta Roriz/Tempranillo.
As colunas de granito do majestoso Templo de Diana, em Ã?vora
A rota dos vinhos do Alentejo começa por Évora, capital da província e cidade tombada pela Unesco como Patrimônio Histórico Mundial, graças às ruínas romanas, especialmente o majestoso Templo de Diana, que já abrigou um teatro e um matadouro e cujas colunas de granito são vistas em todos os antigos cartões-postais e atuais cliques instagramáveis.
Além de charmosas ruelas, a velha vila medieval reúne inúmeras atrações, como a Igreja de São Francisco com sua Capela dos Ossos e museu, uma grande universidade, bares e restaurantes, como o Fialho, de comida alentejana, que já foi considerado o melhor restaurante regional da Europa. Atualmente, uma abordagem moderna à cozinha tradicional alentejana é feita no Lombardo. Comece se deliciando com vieiras escoltadas de purê de batata-doce, crumble de croutons e legumes salteados antes de pedir lombo de garoupa com caldo de camarão. O chef João Lombardo, que dá nome à casa, gosta de harmonizar com um bom Bojador.
Um dos mais importantes vinhateiros portugueses, João Portugal Ramos, ao lado do filho, Vitor Hugo
Cerca de 40 quilômetros ao norte de Évora, chega-se a Estremoz, conhecida como “cidade branca” devido à extração de mármore branco usado em edificações medievais, como o Castelo de Estremoz e as muralhas do século 13 com quatro portas de entrada… de mármore. Lá, reina um dos mais importantes vinhateiros portugueses, João Portugal Ramos, que antes de fazer seus próprios vinhos foi enólogo nas principais regiões vinícolas do país. Para ele, “o vinho é a expressão de quem o produz e não fruto do acaso”. Fica na Adega Vila Santa, cuja arquitetura é típica alentejana, a sede do grupo que produz 4 mil garrafas ao ano. Lá se pode também almoçar uma refeição de três etapas (entrada, prato principal e sobremesa) por 65 euros acompanhada de vinhos.
Nas prateleiras, há muitas maravilhas, entre elas, Marquês de Borba, título pertencente a um antepassado de João Portugal Ramos, que se distinguiu pela sua enorme cultura e paixão pelas artes. “A mesma paixão que nos inspirou na criação deste vinho que procura dignificar todo o potencial vitivinícola do Alentejo”, destaca o rótulo da garrafa. Com o mesmo nome, há uma versão do vinho branco Marquês de Borba Vinhas Velhas, ambos por R$ 229 cada, na Porto a Porto, enquanto a versão Colheita sai por R$ 99.
Até vegano faz parte do portfólio com o nome de Pouca Roupa — são vinhos branco, rosé e tinto, concebidos para o público jovem para brindar os dias quentes do verão. Outra joia é o Duorum, resultado da parceria de dois conhecidos enólogos. “Esse foi feito no Douro com meu amigo de infância José Maria Soares Franco”, explica João Portugal Ramos, que acaba de replicar o rótulo para embalagem bag in box por 10,50 euros em Portugal.
Também está aberta à visitação a Adega de Borba. Mais antiga cooperativa do Alentejo, foi fundada por 12 viticultores da região e este ano está completando 70 anos. Atualmente, 270 associados cultivam uvas brancas e tintas, que resultam em 40 rótulos distintos, assinados pelo enólogo Oscar Gato. O Brasil está entre os cinco principais mercados da cooperativa.
Vinícolas do Alentejo A Fita Preta foi construída em um palácio muito procurado para cerimônias de casamento
A maior novidade, porém, está instalada num prédio construído no fim do século 14, a 15 minutos de Évora, que é o Paço do Morgado de Oliveira, totalmente reformado e arrendado pelo enólogo e consultor Antônio Maçanita e o sócio David Brook. Filho de pai açoriano e mãe alentejana, o lisboeta Maçanita escolheu o antigo palácio para instalar a vinícola Fita Preta, em meio a vinhedos cultivados há 60 anos.
Antônio Maçanita escolheu um antigo palácio para instalar a vinícola Fita Preta, em meio a vinhedos cultivados há 60 anos
Com queijos de produtores locais e presunto 100% bolota é servida a prova de sete vinhos com explicação sobre cada um. Imponente e considerado “dos sonhos” pelas agências, o local é muito usado para casamento. No início do ano, foi aberto ao público um restaurante dentro da antiga capela, lugar imponente e histórico que recebeu reis e rainhas. No cardápio essencialmente gourmet com entrada de cogumelos, espuma de abóbora e castanha-do-brasil, vem uma tábua de queijos de produtores locais. Destaque para os queijos amanteigado e curado feitos de leite de ovelha. Reservas no site www.antoniomacanita.com.
Cartuxa é uma das vinícolas mais populares de Portugal
Se há um ícone alentejano no mundo dos vinhos, esse se chama Pêra-Manca. Relativamente novo, foi lançado em 1990 e só houve até agora 14 safras. Bastante encorpado, complexo, com aromas de passas de frutas escuras e toque de madeira, apresenta 15,5% de álcool e é feito de duas uvas autóctones portuguesas: Trincadeira e Aragonez.
O nome do vinho vem da expressão pedra manca, que se refere a grandes seixos soltos encontrados no Alentejo. Solo característico da região árida e seca, ao contrário do norte, onde as terras são mais férteis e são chamadas de quintas. A expressão deriva da quinta parte que o produtor tinha de repassar ao governo, de quem havia recebida a terra. No sul, os beneficiários exigiram uma extensão maior do que normalmente tem as quintas, daí essas propriedades rurais terem sido chamadas herdades, e assim são denominadas até hoje.
O Pêra-Manca é ícone alentejano no mundo dos vinhos
O Pêra-Manca é produzido pela Adega Cartuxa, adquirida no século 19 pela família Eugênio de Almeida, que aumentou a área do antigo mosteiro. De lá saem, anualmente, cerca de quatro milhões de garrafas distribuídas pelas marcas Vinea Cartuxa, EA, Foral de Évora, Cartuxa, Scala Coeli e o lendário Pêra-Manca, vendido por 350 euros. Na Super Adega, o Pêra- Manca tinto safra 2018 custa R$ 4.690 a garrafa, enquanto o branco safra 2021 sai por R$ 899,90.
A Reynolds oferece almoço típico, que inclui borrego assado com batatas
De fácil execução, a cozinha alentejana tem proteínas deliciosas, entre elas, o porco preto e o borrego, assim chamado o animal da raça ovina até 12 meses de idade. Feito ao forno com batatas, é um prato substancioso que pede vinho tinto, coisa que a Reynolds Wine Growers dispõe feito de várias castas, entre elas, a francesa Alicante Bouchet, da qual foi pioneira, tornando-a “a casta estrangeira mais portuguesa de Portugal”, como se diz por lá.
Localizada no alto Alentejo, na região de Portoalegre, a vinícola Reynolds pertence à família de origem inglesa, que produz vinhos desde 1850. O top se chama Gloria Reynolds em homenagem à matriarca e é produzido apenas em anos de excelente safra. Você pode agendar uma visita com degustação de vinhos até com almoço típico, que começa com sopa de tomate, folhado de alheiras com abóbora, borrego assado com batatas e siricaia de sobremesa. Será servido num espaço rústico com lareira, onde os pratos se mantêm aquecidos pelo fogo.
A Reynolds tem origem em uma família inglesa
Ainda em Portoalegre, está a Adega Mayor, pertencente ao Grupo Nabeiro, dono da marca Delta Cafés, presente em 40 países, inclusive o Brasil. O plantio começou em 1997 em 180 hectares de vinhas distribuídos em três herdades. A vinícola leva a assinatura de um dos mais importantes arquitetos de Portugal, Siza Vieira, de 91 anos, que costuma dizer “Não quero ser consagrado, quero ter trabalho”.
Vale a pena a degustação dos bons vinhos, como Comendador e Caiado, acoplada à visita guiada. Do terraço panorâmico, pode-se observar os vinhedos, o olival e até a Espanha, que faz fronteira com o Alentejo.
Alguns dos melhores vinhos de Portugal são produzidos no Alentejo. Nem sempre foi assim. Durante o regime salazarista, a área foi destinada ao plantio de cereais, enquanto vinhedos eram arrancados. Ainda hoje a região, que é a maior do país, é essencialmente agrícola, com culturas de grãos, oliveiras e bosques de sobreiros — a árvore da cortiça, matéria-prima da rolha, da qual os portugueses são o principal produtor mundial.
A vitivinicultura começou a ser conhecida a partir de 1988 quando a região foi demarcada, embora lá já se produzisse vinhos muito antes. Segundo a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, a área plantada é de 21.970 hectares e conta com mais de 600 produtores, dos quais 651 são membros da CVRA, representando 58% da área total de vinhas da região.
Conservar a natureza com foco na adaptação às mudanças climáticas, incentivar práticas ambientais responsáveis na indústria do vinho, como reduzir o peso da garrafa de vidro e até mitigar os danos agrícolas provocados pelo pássaro migratório estorninho cinzento, que alterou a rota do norte da África para ficar mais tempo no clima cada vez mais quente do Alentejo estão entre os objetivos do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA), lançado há 10 anos. “Esse programa é essencial para garantir a competitividade, a qualidade e a identidade dos vinhos, preservando recursos, apoiando os produtores e respondendo ao mercado”, afirma Tiago Caravana, diretor de marketing da CVRA.
Vinícolas do Alentejo A Herdade dos Grous foi comprada pela família alemã Pohl, que passou a produzir vinhos em 2004
Ave migratória de grande porte que voa sempre com o pescoço estendido, em longas travessias desde o norte da Europa para o norte da África, os grous procuravam descanso num ponto do Alentejo. A observação deu nome à Herdade dos Grous, propriedade comprada pela família alemã Pohl, que passou a produzir vinhos em 2004. Situada a 20 quilômetros de Beja, um dos três distritos do Alentejo (os outros dois são Évora e Portoalegre), a herdade de 1.050 hectares reúne produção de vinho e azeite, agropecuária, turismo rural e enoturismo.
Ela se distingue de outras também pelo conforto e pela comida oferecidos no hotel, onde os clientes poderão degustar azeite e vinho durante o menu. Quem responde pela vinificação é o premiado enólogo Luis Duarte, eleito três vezes enólogo do ano em Portugal.
Luis Duarte foi eleito três vezes enólogo do ano em Portugal
Um passeio de jipe ao longo de 800 hectares é a melhor forma de conhecer o ecossistema da Tapada de Coelheiros, em Arraiolos (distante 22 quilômetros de Évora), cuja história começa há 500 anos, quando a propriedade rural foi oferecida como dote de casamento a Dom Rui de Sousa, autor do Tratado de Tordesilhas. Em 2015, o brasileiro Alberto Wesser comprou a herdade e contratou o enólogo Luis Patrão para elaborar os vinhos. Wesser, que fala com sotaque por ter estudado em colégio alemão no Brasil, onde viveu até os 25 anos, atuou na indústria química Basf, na Alemanha, e foi presidente global da Bunge, em Nova York. “Teve um ano que dormi 90 noites dentro de um avião”, comenta.
Em busca de uma vida mais tranquila, o executivo aos 60 anos se encantou com o conjunto de vinhedos, ovelhas, olival e nogueiras, junto de uma floresta com gamos, veados, pássaros e morcegos no Alentejo. Daí oferecer programas de enoturismo, que finalizam com degustação de vinhos. “Nosso foco é a qualidade dos vinhos”, salienta Diogo Costeira, diretor da empresa, que exporta para o Brasil, Estados Unidos, Suíça e França.
Vinícolas do Alentejo A Mainova produz, desde 2044, vinhos e azeites com foco na sustentabilidade
Mainova é um projeto familiar localizado em Vimiero a 1h30 de Lisboa e meia hora de Évora, cujo nome se refere à filha mais nova da família que adquiriu a propriedade 15 anos atrás e passou a produzir
vinho e azeite há apenas quatro, conta Bárbara Monteiro, ela própria a homenageada, filha mais nova de três irmãs. Produz seis variedades de vinho – branco, tinto e rosé – , e duas de azeite, de forma sustentável. Alguns vêm em garrafas de vidro reciclado.
São produzidos de acordo com o regime biológico e integrado, o que resulta em pouca intervenção, baixos sulfurosos e majoritariamente veganos. Barbara, que define a adega como “galeria de fazer vinho”, organiza várias experiências degustativas, desde piquenique à sombra das oliveiras, algumas do tempo de Cristo com mais de 2.500 anos, até jantar com o renomado chef João Narigueta, dono do Híbrido, em Évora. Ele pertence a nova geração que busca renovar a tradição gastronômica com
foco na sustentabilidade e no respeito pelo produto.
Com adegas tão próximas umas das outras é possível se hospedar em Évora e visitar cada dia novas opções para conhecer o vinho alentejano. O Vila Galé Évora é uma alternativa. Pertence ao segundo maior grupo hoteleiro de Portugal e está presente no Brasil.
Santa Vitória é uma empresa do grupo hoteleiro, fundada em 2002, que produz vinhos e azeites de qualidade superior em Beja. No topo está o tinto Inevitável elaborado só em anos excepcionais. Os visitantes podem acompanhar toda a produção e terminar o dia com uma prova dos rótulos e azeites, quase todos disponíveis nas operações do grupo que somam 45 hotéis em Portugal, Brasil, Cuba e Espanha.
O próximo a ser inaugurado no Brasil é Vila Galé Collection Ouro Preto, em maio e em novembro, o Vila Galé Collection Amazônia em Belém do Pará. Para 2026, estão previstas mais quatro unidades, duas em Alagoas e duas no Maranhão, elevando para 17 o número de empreendimentos no país. É assim que o grupo lusitano compartilha o branco macio dos lençóis e toalhas servindo também aqui as melhores castas do Alentejo.
A jornalista viajou a convite da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana
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